segunda-feira, 1 de julho de 2013

Inocência tracejada

Observando o outro pisar apenas onde traçava uma linha no chão, perguntou:

- O que está fazendo?
-  Delimitando com certeza absoluta.
- Delimitando o quê?
- Onde é seguro... Onde não há riscos e diferença vibracional. Assim posso voltar sempre por estes caminhos. Ficam fáceis de achar – Faz uma pausa para mostrar a fita branca que colava no chão - Entende? Onde marco um X, já sei que não posso retornar.
- Entendo, entendo, claro. Mas e se de repente você pisar do lado de fora da linha?
- Que besteira, não tem porquê fazer isto.
- Mas poderia acontecer.
- Não, não poderia.
- Poderia sim. Veja, eu posso te empurrar...
Assim que escorou seus ombros com o do outro e aumentou o peso pra empurrá-lo, o outro rapidamente se esquivou e soltou um grunhido desesperado.
- Saía daqui! Não me atormente! Deixe-me em paz! – Virou as costas e seguiu por um caminho já demarcado, até que parou em um local e ficou confuso, quase indignado.
- Qual é o problema? – O primeiro pergunta ao analisar a respiração do outro subir e descer sem parar.
- Não é possível... Eu tenho certeza! - Olhava para o chão como se procurasse algo debaixo do próprio nariz.
- Certeza de que? – Aproximando-se e tentando enxergar o que o outro parecia querer ver.
- Aqui devia haver... É certo que sim! Como pode? Olhe só para esse lugar, deveria haver um X bem aqui! E eu tenho certeza que já o coloquei!
- Mas não há X aqui, logo deve ser seguro. Vamos, pise...
- Você só pode estar louco. Se fosse seguro teria uma linha muito bem tracejada...
- Mas não tem, é um caminho novo com infinitas possib...
- Pelo amor de deus! Pare de dizer tolices. Este local, este local é muito imprevisível, sabe lá o que poderia me acontecer aqui. Tenho certeza que esse é o tipo de local onde as coisas não saem como esperado...
- Mas isso é bom, imagine...
- Por favor! Aposto que é onde não se pode mais voltar atrás... Muito suspeito. Imagine! Tomar uma decisão e arcar sozinho com todas as consequências!
- Mas é disto que é feito a vida! Você pode reinventar... - Parou de falar ao notar o olhar de desprezo que lhe era lançado.
- Você é o ser mais imprudentemente tolo que eu já vi! Não posso evitar, este definitivamente é o pior lugar onde já estive.
- Escute, calma. Você só anda por lugares onde não tem... Como é mesmo?
- Diferença vibracional.
- Isto! – Fingia concordar. - Ou seja, as coisas nunca são criadas, elas continuam lineares, sem incômodos, na sua zona de conforto. Como você espera viver grandes coisas...
- Quem falou em viver grandes coisas? Viver já me dá trabalho o suficiente! Imagine! Você entende, que solto por ai – Apontando para o outro com displicência.  - Vivendo num mundo sem linhas, sem certezas, você se desgasta o tempo todo?
- Sim, mas...
- Em uma hora você tropeça em uma pedra que não havia visto e escalpela o dedo! Outra vez caí num buraco e saí com todos os músculos doloridos. Outra dá com a testa na parede... Tudo, tudo para o quê? Se no fim você é sempre o mesmo? Por favor, pare! Deixe-me só, porque agora - Apontando para o chão - Nem paz eu tenho mais.
- Você devia...
- Eu não devia nada! Aqui é o tipo de caminho que com certeza leva a algum lugar...
- Perfeito! Então! Vamos! Você tem uma certeza...
- E este é exatamente o meu problema. Ele leva a algum lugar, provavelmente um lugar certo, de fato meu caro, você estava certo. Este caminho leva a algum lugar certeiro!
- Eu sabia que você veria! Pois muito bem, então vamos lá.
- De forma alguma. Agora as coisas pioraram muito, obrigado por me fazer enxergar. Eu não sei onde este caminho vai me levar... É um caminho certo, mas o seu fim não, na verdade, muito incerto. Agora mais do que nunca devia haver um X aqui. Tudo piorou muito.
-  A culpa é singular e intransferível... – Olhando o outro pelo o que lhe parece uma eternidade, mas nota algo mais a distancia - Olhe! Há um X ali!
- É mesmo! Devia ser aquele X de que eu me lembrava. Não devo ter nunca passado por aqui.
- Muito bem, e agora?
Seu olhar vai do chão para o outro, do outro para o chão.
-  Definitivamente este não é um bom lugar. - Retira a fita branca do bolso e coloca um X ali.




Barbara

2 comentários:

  1. Auto merchand :)

    http://doncontreras.blogspot.com.br/2013/03/silencio-em-sol.html

    Dançar é ritmar-se em X

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